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Prefácio
Solange Rech*
“Oferte a sua canção, a sua poesia, a sua hospitalidade,
aquele prato que ninguém sabe fazer igual.”
(Fátima Irene).
Mais que uma missão literária, é honroso apresentar Fátima
Irene, neste novo e delicioso livro. De tempo em tempo, aqui
e acolá, a natureza nos brinda com pessoas muito especiais.
Fátima Irene é uma dessas raridades. Ela entende de alma
humana, como mostram seus versos e mensagens. Sim, porque um
verso não é um amontoado de palavras, e sim uma ebulição de
sentimentos. O que caracteriza o poeta é o dom divinal de
tecer, com palavras, chaves enigmáticas que abrem os
corações.
Desconfie, leitor, das pessoas que dizem ter lido um volume
de poesias de um só fôlego. Assim, desse jeito, lê-se
ficção, prelibando o enredo, ansiando pelo desfecho. Não
poesia. Um poema há de trazer, na mística de sua mensagem,
um mundo descortinado, todinho novo. E, para adentrá-lo,
precisamos, muitas vezes, recolher-nos e ver com “olhos
d’alma”. Por isso que o poema é um todo, tenha ele um só
verso ou seja longo como os Lusíadas. Tal é a mística do
poema. Tal é também a mística de Fátima Irene. Porque, como
ela própria nos diz, “ser poeta é caminhar sozinho,
implorando ao mundo a compreensão de seus ideais!”
O fazer poético de Fátima Irene está por merecer
aprofundados estudos críticos e demoradas buscas, seja pela
força intrínseca da mensagem, seja pela importância
quantitativa de seu trabalho. Que bom autor não
subscreveria, com orgulho, vários de seus textos? Quem não
se queda, embevecido, ante a beleza e profundidade desses
versos de Saudade: “Saudade é ter a impressão de que nada
aconteceu / que ele não partiu, não traiu ou morreu / e que,
a qualquer momento, / não importa se aqui ou além, / se
nesta ou em outra vida, / retomaremos o trajeto interrompido
/ pelo revés inesperado / e estaremos de novo / caminhando /
lado a lado !” ?
Versos cortantes, definitivos, versos de quem tem o que
dizer e sabe fazê-lo, com as palavras certas de quem se
assume e se posiciona, malgrado as dificuldades que a vida
possa oferecer. Versos cortantes, eu disse. Mas sempre
revestidos de uma ternura rara, sabendo a frescor de água de
cachoeira, bebida no covo das mãos, mitigando sedes
espirituais. Versos que mostram uma autora pronta para o
perdão, que trazem consigo o dom de refazer caminhos, de
reprogramar a caminhada, sempre com o apanágio de uma
maturidade potencializada pela doçura. Nessa linha de
observação, encanto-me – e convido o leitor a partilhar meu
encantamento – com alguns versos de Despedida:
“E se porventura em sonhos minha alma desvairada te buscar
e, / em prantos te encontrar andando pela rua, / Abraça-me,
com aquele carinho de antigamente / Porque sonhando, nossas
almas não mentem / E a minha te dirá que ainda sou tua.”
Fátima Irene tem na generosidade um traço marcantemente
próprio. E isso se reflete nos seus versos e mensagens, como
se vê no poema que propositadamente fiz transcrever no
início deste ligeiro texto. Sorte nossa, que podemos, assim,
usufruir, na sua obra, pérolas literárias ainda mais
enriquecidas por suas qualidades humanísticas.
Poderia registrar aqui os cumprimentos à autora por mais um
livro de sua esmerada lavra, mas, pelo presente raro e
valioso com que ela nos brinda, prefiro cumprimentar os
leitores. Eles, sim, têm motivos de regozijo, porque não é
todo dia que alguém fala aos seus corações, com a certeza de
ser entendido.
* Solange Rech, 58 anos, é poeta catarinense, autor, entre
outros livros, de “De Amor também se Vive...”,
“Serões na Rede” e “Sacerdócio Poético”.
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